Mina incendeia petroleiro em Ormuz, diz o Irã, e frete do barril passa de US$ 20

Ataques a navios no Estreito de Ormuz e a instalações da Saudi Aramco elevam o custo de levar petróleo pelo mar, que hoje é cerca de sete vezes o de um ano atrás, segundo o Goldman Sachs

Por Vinicius Lemos,

Um superpetroleiro carregado com uma carga superior a 2 milhões de barris pegou fogo ao sul do Estreito de Ormuz depois de atingir uma mina marítima, segundo a Guarda Revolucionária do Irã, conforme noticiou o g1. A versão iraniana é de que o navio teria apagado o radar e os equipamentos de navegação para escapar da área por um caminho sem autorização. A embarcação não foi identificada, e até agora não há informação sobre vítimas.

O episódio não ficou isolado. A própria Guarda Revolucionária afirma que minas pararam três petroleiros em Ormuz e provocaram incêndio em dois deles. Na segunda-feira, de acordo com a CNBC, os houthis do Iêmen assumiram ataques contra instalações da Saudi Aramco em Yanbu e contra o campo de Shaybah, na Arábia Saudita. Com a rota marítima e a produção saudita sob pressão na mesma semana, o Brent, referência internacional do petróleo, voltou a subir.

Ormuz é uma passagem estreita por onde sai boa parte do petróleo do Golfo Pérsico. Quando ela vira zona de risco, o problema deixa de ser apenas quanto petróleo existe no mundo e passa a ser quanto custa levá-lo com segurança até quem compra. É esse custo que mais mudou no último ano.

Segundo o banco Goldman Sachs, em dados citados pela CNBC, o frete médio para transportar um barril de petróleo bruto passou de US$ 20, quando um ano antes estava em US$ 3. É uma alta de cerca de sete vezes. O banco explica de onde vem a diferença: aproximadamente US$ 7 correspondem ao prêmio de risco de guerra cobrado para cruzar Ormuz, e cerca de US$ 4 vêm da necessidade de transferir parte da carga para outro navio fora do Golfo Pérsico. Seguro mais caro e operações extras entram, no fim, no preço do transporte.

Por que isso importa para além dos navios? O Goldman Sachs alerta que o frete alto pode apertar a margem de lucro das refinarias e, mais adiante, empurrar para cima o preço dos combustíveis refinados, como diesel e gasolina. De acordo com a CNBC, as refinarias asiáticas são as mais afetadas até agora. Se elas reduzirem a produção para não operar no prejuízo, a oferta global de combustível encolhe, e o preço tende a subir em outros mercados também.

Para quem mora no Brasil, o efeito não é automático nem imediato, mas o caminho é conhecido. O petróleo e os derivados são negociados com referência no mercado internacional, e um combustível mais caro lá fora costuma pressionar o preço aqui dentro. O diesel é o ponto mais sensível, porque move os caminhões que levam comida, remédios e mercadorias pelo país. Quando o diesel sobe, o frete rodoviário encarece, e esse custo tende a aparecer aos poucos no preço do que chega ao supermercado.

Na prática, quanto mais o orçamento de uma família depende de combustível, seja no tanque do carro, no transporte por aplicativo ou na passagem de ônibus, mais ela sente esse tipo de choque. Uma boa medida, sem alarme, é anotar quanto se gasta hoje por mês com combustível e transporte. Com esse número em mãos, fica mais fácil perceber quanto uma eventual alta pesaria no mês e planejar com antecedência.

Nos próximos dias, vale acompanhar três pontos. O primeiro é se novos ataques ou minas atingirão navios em Ormuz, o que manteria o prêmio de risco elevado. O segundo é a reação das refinarias, principalmente na Ásia, a esse custo maior de transporte. O terceiro é se a alta do petróleo e dos derivados no exterior chega aos preços praticados no Brasil. A lição deste episódio é simples: o risco na rota vira frete mais caro, e o frete mais caro pode virar combustível mais caro para todos.

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