Protestos contra o custo de vida levam 550 mil às ruas da França e pressionam Macron
O movimento começou com estudantes reclamando de escolas precárias e cresceu com inflação, energia mais cara e um pacote de 54 bilhões de euros em cortes e impostos no orçamento de 2027.
Por Vinicius Lemos,

Cerca de 550 mil pessoas protestaram no sábado em várias cidades da França, segundo números do Ministério do Interior citados pela Al Jazeera e pela CNBC. A maior parte das marchas foi pacífica, mas uma minoria saqueou lojas e atacou prédios públicos. Em Limoges, a prefeitura histórica da cidade foi em grande parte destruída por um incêndio. De acordo com a Al Jazeera, 1.200 pessoas foram presas e 150 policiais ficaram feridos. As manifestações aumentam a pressão sobre o governo do presidente Emmanuel Macron.
A onda começou de forma mais restrita. No mês passado, alunos do ensino médio da periferia norte de Paris saíram às ruas contra a falta de professores e as más condições dos prédios escolares, segundo a Al Jazeera. O movimento ganhou corpo ao se juntar a sindicatos, a uma greve nacional do setor público contra o governo e aos coletes amarelos, grupo que surgiu em 2018 para contestar a alta do custo de vida e a desigualdade econômica.
O pano de fundo é a perda de poder de compra. Segundo a CNBC, os preços ao consumidor subiram 3,1% em setembro na comparação com o mesmo mês do ano anterior, e a energia ficou 21,3% mais cara em um ano. As guerras no Irã e na Ucrânia empurraram o preço do diesel para cima em toda a Europa. Um instituto francês calcula que uma família com dois adultos e dois filhos perdeu o equivalente a 1.200 euros por ano desde 2024, e projeta queda de 0,7% no poder de compra em 2026. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o desemprego chegou a 21,6%, ainda de acordo com a CNBC.
A margem do governo para aliviar a situação é pequena. O orçamento de 2027 prevê um pacote de 54 bilhões de euros em cortes de gastos e aumento de impostos para reduzir o déficit público, projetado em 5,4% do PIB neste ano, segundo a Al Jazeera e a CNBC. Entre as medidas está o congelamento do salário-base dos servidores públicos, o que alimenta a insatisfação de uma categoria que já está em greve. Ouvido pela CNBC, um gestor de investimentos afirmou que há risco real de uma crise da dívida, e lembrou que impostos para empresas francesas também podem subir.
Por isso o episódio importa para além das imagens de confronto. O governo se vê entre duas pressões opostas: a rua pede alívio no custo de vida e serviços públicos melhores, enquanto as contas exigem aperto. O mercado financeiro reagiu rápido. Na segunda-feira, os juros dos títulos do governo francês subiram e o euro perdeu valor, segundo a CNBC, sinal de que os investidores passaram a cobrar mais para emprestar a um país com pouco espaço fiscal. O calendário eleitoral aumenta a tensão: a eleição presidencial francesa está marcada para abril de 2027.
Para quem mora no Brasil, o caso francês não muda a conta do mês diretamente, mas serve de lição sobre como funciona a economia de qualquer país. Quando o governo deve muito, sobra pouco dinheiro para socorrer as famílias em momentos de preço alto, e o ajuste costuma chegar ao cidadão de alguma forma: em mais imposto, em serviço público pior, em inflação ou em moeda mais fraca. Esses efeitos raramente aparecem de uma vez, mas se acumulam até virarem insatisfação aberta, como agora na França.
Uma forma prática de acompanhar a saúde econômica do próprio país é olhar além da manchete e procurar três números: a inflação, o desemprego e o déficit do governo. Juntos, eles mostram quanto o salário perde de valor, quanta gente está sem trabalho e quanto espaço o Estado tem para agir.
Nos próximos dias, vale observar se novos protestos mantêm o mesmo tamanho, como o governo conduz a votação do orçamento de 2027 e se as medidas de corte serão mantidas ou suavizadas diante da pressão. Também merecem atenção os juros dos títulos franceses e a cotação do euro, que indicam o grau de desconfiança do mercado em relação às contas da França.